Há um risco óbvio em produzir mais um documentário sobre Elis Regina: repetir o que todo mundo já sabe. A voz extraordinária, o temperamento forte, os embates profissionais, a perseguição durante a ditadura e a morte precoce já renderam filmes, livros e especiais. Elis & Eu escapa dessa armadilha quando entende que sua história mais interessante não está no palco. Está no quintal, nas reuniões escolares, nos brinquedos espalhados pela casa e nas lembranças de um filho que passou a vida com medo de esquecer.
Dirigido por André Bushatsky, o documentário parte do livro Elis e Eu: 11 Anos, 6 Meses e 19 Dias com Minha Mãe, publicado por João Marcello Bôscoli em 2019. Por isso, o longa não tenta apresentar uma biografia definitiva da cantora. Em vez disso, acompanha a reconstrução afetiva de uma mãe que também era, por acaso, uma das maiores artistas brasileiras. Elis & Eu estreia nesta terça-feira, 25 de agosto, exclusivamente no Universal+.
A infância reconstruída pelos detalhes
A direção encontra uma forma delicada de representar a infância de João Marcello. Discos, brinquedos, móveis e objetos domésticos ajudam a reconstruir visualmente as memórias do menino. Além disso, cenas como o piquenique no quintal e a rotina na casa da Serra da Cantareira aproximam Elis de uma vida que raramente aparece quando sua trajetória é recontada.
As dramatizações poderiam facilmente cair na imitação exagerada. Contudo, Lilian Menezes evita essa armadilha. Logo em sua primeira fala, a atriz encontra uma voz semelhante à de Elis sem transformar a personagem em caricatura. Não por acaso, ela já interpretou a cantora no espetáculo Elis, A Musical. A experiência aparece tanto na entonação quanto na maneira de conciliar doçura, impaciência e autoridade.
Antônio Menqui e Victor Constantino, por sua vez, interpretam João Marcello em diferentes momentos da infância. As cenas não tentam substituir as imagens reais. Pelo contrário, funcionam como uma ponte entre aquilo que o filho recorda e o que o acervo consegue comprovar.
A morte de Elis, em janeiro de 1982, ocupa um espaço doloroso. João tinha menos de 12 anos quando perdeu a mãe e, posteriormente, também enfrentaria a morte do pai, Ronaldo Bôscoli. Nesse sentido, o documentário trata a memória quase como uma reação ao trauma. “Eu percebi que não lembraria se ela não tivesse morrido”, afirma o produtor em um dos relatos mais duros do filme. O cotidiano, portanto, ganhou importância porque passou a representar tudo o que restou.
Elis entre relacionamentos, maternidade e disputas
O filme também aborda o relacionamento conturbado com Ronaldo Bôscoli sem transformar a história em romance idealizado. Havia afeto, mas também existiam tensão, disputas e uma verdadeira montanha-russa emocional. Depois, a chegada de César Camargo Mariano marca outra fase pessoal e profissional. A parceria aparece com força a partir do álbum Elis, de 1972, primeiro trabalho da cantora com os arranjos do músico.
Ao mesmo tempo, Elis & Eu recapitula os conflitos durante a gravação de Elis & Tom, em 1974. Tom Jobim resistiu aos arranjos modernos de César, enquanto Elis insistiu na direção musical que desejava. A disputa envolvia egos, diferenças de geração e visões artísticas opostas. Portanto, seria simplista explicar todo o conflito apenas pelo machismo.
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Ainda assim, o contexto não pode ser ignorado. Elis era uma mulher jovem defendendo suas escolhas diante de homens que já ocupavam posições de enorme prestígio na música. Anos depois, ela criticaria publicamente os homens “chauvinistas” e o sistema paternalista. Assim, sua firmeza durante aquelas gravações também ajuda a compreender uma artista que não aceitava ocupar um papel secundário nem mesmo diante de Tom Jobim.
O episódio complementa o que Elis & Tom: Só Tinha de Ser com Você mostrou sobre a gravação do disco. Entretanto, agora o conflito surge por uma perspectiva mais íntima: Elis não era somente a cantora que batia o pé no estúdio. Também era a mãe que voltava para casa e precisava administrar filhos, casamento, empresa e carreira.
Um acervo valioso, com som que poderia ser melhor
O material de arquivo representa outro grande acerto. A produção pesquisou mais de 1.500 imagens e cerca de 200 horas de vídeo. No entanto, os números importam menos do que a utilização desse conteúdo. Entrevistas de Rita Lee, Milton Nascimento, Ronaldo Bôscoli e Roberto Menescal conversam com novos depoimentos de Pedro Mariano, Wanderléa, Celina Silva, Natan Marques e do biógrafo Julio Maria.
Pedro Mariano ajuda a ampliar o retrato familiar, enquanto as lembranças envolvendo ele e Maria Rita mostram diferentes versões da mesma mãe. Além disso, Celina Silva e Natan Marques oferecem uma intimidade que dificilmente apareceria em um documentário concentrado apenas na carreira.
O principal problema está na experiência sonora doméstica. Dependendo da televisão ou do equipamento usado, a diferença de volume entre as falas e as músicas pode incomodar. Algumas passagens exigem ajustes constantes, o que quebra parte da imersão. Uma exibição nos cinemas provavelmente valorizaria melhor as nuances das gravações e das performances musicais.
Apesar disso, Elis & Eu toma a decisão correta ao deixar a “versão cantora” fora do centro da conversa. Essa história já foi contada muitas vezes. Aqui, interessa a mulher que cozinhava, cultivava uma horta, participava da educação dos filhos e tentava protegê-los até mesmo durante a ditadura.
No fim, Como Nossos Pais ganha uma pequena inversão. Em um documentário no qual o filho fala tanto, são justamente os filhos que nos ensinam a enxergar os pais de outra maneira. Elis & Eu não diminui o tamanho da artista. Apenas mostra que, dentro de casa, ela também atendia por um nome muito mais simples: mãe.














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