Crítica | Digger é grandioso, caótico e incapaz de se conter

Digger não entra em cena discretamente. Pelo contrário, o novo filme de Alejandro G. Iñárritu fala alto, ocupa cada centímetro da tela e transforma sua crítica ao poder em um espetáculo deliberadamente exagerado. O resultado provoca, diverte e impressiona, embora também canse ao tentar explicar repetidamente a própria importância. Veja abaixo a crítica de Digger.

No centro dessa experiência está Tom Cruise, praticamente irreconhecível como Digger Rockwell, um magnata texano do petróleo que construiu um império explorando o planeta. Quando suas atividades provocam uma catástrofe de proporções globais, ele decide assumir o papel de salvador da humanidade, ainda que seja o principal responsável pelo desastre.

Tom Cruise troca o controle pelo grotesco

Em vez do astro atlético e calculista de Missão: Impossível, Cruise entrega aqui um personagem envelhecido, barulhento e fisicamente decadente. A maquiagem pesada não serve apenas para esconder o ator, mas também transforma Digger na representação grotesca de um sistema que continua funcionando mesmo enquanto apodrece.

Por isso, a melhor parte da atuação não aparece nos discursos explosivos ou nas tiradas cômicas. Ela surge quando Cruise reduz o tom e permite que a fragilidade atravesse a caricatura. Nesses momentos, Digger deixa de ser apenas um símbolo do capitalismo predatório e passa a revelar o medo de um homem que percebe ter perdido o controle da própria história.

Ao mesmo tempo, o ator abraça sem pudor os excessos exigidos pela direção. Ele grita, gesticula, tropeça e domina os espaços como alguém convencido de que pode transformar qualquer mentira em verdade apenas aumentando o volume.

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Crítica mostra que Digger é sátira que explica demais a própria piada

No entanto, Iñárritu raramente confia que o público compreenderá a mensagem sem ajuda. O roteiro critica a indústria do petróleo, a conveniência política e a facilidade com que grandes corporações transformam tragédias em narrativas favoráveis. Contudo, quase todas essas ideias chegam acompanhadas de explicações, discursos ou imagens que reforçam aquilo que o filme já havia deixado claro.

Ainda assim, algumas sequências encontram o equilíbrio entre absurdo e inquietação. John Goodman se diverte como um presidente disposto a proteger a própria imagem durante o colapso mundial, enquanto Riz Ahmed funciona como a voz racional cercada por homens poderosos que preferem negociar versões dos fatos.

Além disso, Sandra Hüller, Michael Stuhlbarg e Jesse Plemons completam um elenco deliberadamente espalhafatoso. Porém, muitos personagens funcionam mais como peças de uma tese do que como pessoas, o que reduz parte do impacto emocional.

Em determinado momento, a narrativa muda de registro e revela outra camada de sua construção. Dessa forma, o filme amplia a discussão para o papel da arte diante de uma crise real: uma sátira pode transformar alguma coisa ou oferece apenas uma sensação temporária de consciência?

Contudo, essa mudança também expõe a principal fragilidade de Digger. Iñárritu apresenta uma pergunta interessante, mas passa tempo demais admirando a própria engenhosidade. A metalinguagem aprofunda a proposta e, simultaneamente, deixa o filme ainda mais autoconsciente.

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Um espetáculo técnico difícil de ignorar

Visualmente, Digger é arrebatador. A fotografia de Emmanuel Lubezki distorce rostos, amplia ambientes e transforma reuniões políticas em verdadeiros circos de horrores. Além disso, o desenho de produção constrói espaços luxuosos que parecem estar em decomposição junto com seus proprietários.

Enquanto isso, a trilha de Cosmo Sheldrake combina sons naturais com uma energia quase circense. O recurso reforça o contraste entre o planeta ameaçado e os homens que tratam a destruição como mais uma disputa de poder.

Porém, o virtuosismo técnico não resolve os problemas de ritmo. Com mais de duas horas de duração, o longa repete ideias e prolonga situações que já atingiram seu ponto máximo. O maior inimigo de Digger, portanto, não é sua falta de conteúdo, mas sua incapacidade de saber quando parar.

Vale a pena assistir a Digger, segundo a crítica?

Ainda assim, poucos filmes de grande orçamento assumem riscos semelhantes. Digger é estranho, agressivo e genuinamente imprevisível, especialmente quando comparado à segurança das franquias que dominam os cinemas. Mesmo quando erra, o longa erra tentando construir algo ambicioso.

Por isso, a nova parceria entre Tom Cruise e Alejandro G. Iñárritu merece atenção. Não se trata da obra-prima provocadora que o filme acredita ser, mas também está longe de representar um fracasso sem valor.

Portanto, Digger funciona melhor como uma experiência desconfortável do que como uma sátira precisa. Cruise comprova novamente sua versatilidade, enquanto Iñárritu entrega imagens poderosas e ideias relevantes. No entanto, o diretor enterra parte desse impacto sob camadas de excesso, discursos e autoadmiração.

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Digger já está em cartaz nos cinemas brasileiros.

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