A primeira experiência sexual ocupa o centro de Era Uma Vez Minha 1ª Vez, mas o filme funciona melhor quando deixa de tratá-la como um acontecimento extraordinário. Em vez de buscar uma resposta universal sobre o momento certo, a adaptação dirigida por Claudia Castro acompanha quatro adolescentes com desejos, dúvidas e ritmos diferentes.
Teresa, Clara, Tuca e Patty estão no último ano do ensino médio e decidem fazer um pacto: todas devem perder a virgindade antes da formatura. A proposta parece simples e oferece oportunidades para uma comédia adolescente convencional. No entanto, o roteiro de Thalita Rebouças e João Paulo Horta utiliza o acordo como ponto de partida para discutir pressão social, consentimento, insegurança e amadurecimento.
Consequentemente, o filme não pergunta apenas quando será a primeira vez de cada personagem. Sua questão mais relevante envolve o motivo pelo qual elas acreditam que precisam apressar essa experiência.
O pacto funciona melhor quando começa a fracassar
Inicialmente, a narrativa apresenta a virgindade como um problema que as protagonistas precisam resolver. Cada aproximação romântica parece representar uma possível oportunidade, enquanto a proximidade da formatura funciona como uma contagem regressiva.
Entretanto, o filme ganha consistência quando confronta essa mentalidade. À medida que as amigas tentam cumprir o acordo, cada uma percebe que o desejo não obedece a prazos e que a intimidade exige mais do que encontrar uma pessoa disponível.
Essa mudança oferece os melhores momentos da história. Em vez de transformar a primeira vez em um troféu, o longa valoriza a possibilidade de mudar de ideia, esperar ou reconhecer que uma relação não transmite segurança. Além disso, a trama evita estabelecer uma experiência como correta e outra como fracasso.
Por outro lado, o roteiro precisa repetir sua mensagem diversas vezes. Algumas conversas explicam sentimentos que as próprias situações já comunicaram, reduzindo a naturalidade das cenas. Portanto, aquilo que deveria nascer das escolhas das personagens ocasionalmente assume o tom de uma lição preparada para o público.
Quatro amigas, mas somente três jornadas completas
Letícia Braga, Castorine, Lívia Silva e Duda Matte formam um quarteto convincente. Mesmo quando os diálogos soam ensaiados, as atrizes encontram cumplicidade nos gestos, nas provocações e nos silêncios. Dessa forma, a amizade se torna o principal vínculo emocional do filme.
Castorine alcança o maior destaque como Clara. A personagem poderia cair facilmente no estereótipo da adolescente insegura com o próprio corpo, porém a interpretação adiciona confiança, ironia e contradições. Clara não existe apenas para receber uma mensagem de autoestima; ela também deseja, erra e estabelece seus próprios limites.
Lívia Silva, por sua vez, entrega sensibilidade à trajetória de Tuca, enquanto Letícia Braga sustenta as dúvidas de Teresa sem transformar a protagonista em uma coleção de conflitos. As duas encontram bons momentos quando o roteiro permite que elas abandonem a urgência do pacto e observem o que realmente querem.
Duda Matte possui química com o grupo, mas Patty recebe menos espaço individual. Embora participe das decisões e funcione como apoio emocional, a personagem não conquista uma jornada tão definida quanto as demais. Consequentemente, o filme promete quatro perspectivas, mas desenvolve apenas três com profundidade.
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Uma adolescência contemporânea com linguagem antiga
O livro que inspira o longa chegou às livrarias em 2011. Quinze anos depois, a adaptação tenta atualizar comportamentos, referências e maneiras de falar. Contudo, a passagem do tempo aparece justamente como um dos principais obstáculos.
O roteiro conhece os temas que mobilizam os adolescentes atuais, mas nem sempre compreende como eles conversam sobre esses assuntos. Algumas gírias, reações e discussões parecem cuidadosamente posicionadas para demonstrar juventude. Por isso, a espontaneidade desaparece em diferentes momentos.
Ao mesmo tempo, a direção aposta em uma estética limpa e colorida, próxima da dramaturgia juvenil da televisão dos anos 2010. A escolha mantém o filme acessível e agradável, embora também reforce a sensação de uma história que chegou aos cinemas com certo atraso.
A trilha sonora amplia esse problema ao tentar indicar constantemente como o público deve interpretar cada cena. Quando as imagens encontram espaço para respirar, entretanto, as atrizes comunicam muito mais do que as músicas ou os diálogos explicativos.
Leveza não precisa significar superficialidade
Ainda assim, Era Uma Vez Minha 1ª Vez merece crédito por falar sobre sexualidade feminina sem punição moral. O filme permite que suas protagonistas demonstrem curiosidade e desejo, enquanto apresenta o consentimento como parte natural das relações.
Além disso, a comédia não ridiculariza as meninas por sua falta de experiência. O humor nasce principalmente das expectativas frustradas e das situações desconfortáveis, não da ideia de que jovens mulheres deveriam sentir vergonha por conversar sobre sexo.
No entanto, o longa evita conflitos mais complexos e resolve alguns desacordos rapidamente. Essa opção preserva o tom leve, mas enfraquece o impacto emocional de certas rupturas. A amizade permanece como porto seguro e, embora isso combine com a proposta, o roteiro poderia explorar melhor as consequências das escolhas individuais dentro do grupo.
Veredito de Era Uma Vez Minha 1ª Vez
Era Uma Vez Minha 1ª Vez não reinventa a comédia adolescente, tampouco apresenta um retrato inteiramente natural da juventude contemporânea. Entretanto, o filme encontra honestidade quando abandona a obrigação de parecer atual e observa quatro amigas tentando compreender os próprios limites.
Apesar dos diálogos artificiais, do desenvolvimento desigual das protagonistas e de uma abordagem excessivamente didática, a produção transmite uma mensagem necessária sem transformar suas personagens em exemplos perfeitos.
Por fim, o filme entende que amadurecer não significa cumprir todas as experiências antes da formatura. Às vezes, crescer envolve reconhecer que a primeira vez não precisa acontecer dentro do prazo criado pelos outros, nem daquele que estabelecemos para nós mesmos.

Ficha técnica
Filme: Era Uma Vez Minha 1ª Vez
Direção: Claudia Castro
Roteiro: Thalita Rebouças e João Paulo Horta
Elenco: Letícia Braga, Castorine, Lívia Silva, Duda Matte, Cauã Martins, Caian Zattar, Cintia Rosa, Pedro Ogata, JP Rufino e Duda Pimenta
Duração: 89 minutos
Classificação indicativa: 14 anos
Estreia: 17 de setembro de 2026













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