Durante anos, as adaptações de Resident Evil oscilaram entre dois caminhos na crítica: copiar personagens e acontecimentos dos jogos ou usar apenas sua iconografia como ponto de partida para filmes de ação. Zach Cregger escolhe uma terceira possibilidade. Em vez de reproduzir missões conhecidas ou reunir protagonistas consagrados, o diretor tenta transportar para o cinema a sensação de jogar a franquia.
Consequentemente, o novo Resident Evil não depende de Leon Kennedy, Jill Valentine ou Chris Redfield para justificar sua existência. A produção acompanha Bryan, interpretado por Austin Abrams, um entregador médico que aceita transportar um pacote importante até um hospital localizado nas proximidades de Raccoon City. No entanto, uma tempestade de neve e um acidente na estrada transformam o trabalho aparentemente rotineiro em uma longa noite de sobrevivência.
A partir desse ponto, o longa encontra sua melhor ideia: colocar um sujeito completamente despreparado diante de um pesadelo biológico.
Crítica de Resident Evil destaca o “herói”
Austin Abrams carrega praticamente todo o filme. Bryan não sabe usar armas com habilidade, não possui treinamento militar e tampouco entende a dimensão da ameaça que encontra. Por isso, cada decisão transmite uma vulnerabilidade que raramente aparece nas adaptações anteriores da franquia.
Ao mesmo tempo, o roteiro utiliza a falta de preparo do personagem para construir humor. Bryan tropeça, hesita, toma decisões equivocadas e tenta manter alguma racionalidade enquanto o mundo ao redor perde qualquer sentido. Entretanto, o filme nunca o transforma apenas em uma piada. Abrams mantém a humanidade do entregador e faz com que o público torça por ele mesmo quando suas chances de sobrevivência parecem mínimas.
Essa escolha também aproxima o longa dos primeiros jogos. Afinal, embora os protagonistas digitais possuam treinamento, o jogador sempre começa cercado por incertezas, poucos recursos e corredores escuros. Dessa forma, Bryan representa menos um personagem específico e mais a própria experiência de quem segura o controle.
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A lógica dos games traduzida para o cinema
Cregger compreende que adaptar Resident Evil exige mais do que espalhar máquinas de escrever, maletas prateadas e símbolos da Umbrella Corporation pelo cenário. Esses elementos aparecem, porém funcionam como detalhes, não como sustentação narrativa.
Em vez disso, o diretor reproduz o ritmo dos jogos. Bryan recebe um objetivo simples, encontra obstáculos, procura novas rotas e utiliza os poucos objetos disponíveis para continuar avançando. Além disso, a câmera permanece próxima do protagonista, enquanto faróis, lanternas e a luz de um celular revelam apenas pequenas partes do ambiente.
Como resultado, cada espaço parece esconder uma ameaça. A estrada coberta pela neve, o hospital e os corredores subterrâneos não funcionam somente como cenários, mas também como etapas de uma jornada que cresce em escala e insanidade. Inicialmente, o perigo parece localizado. Logo depois, porém, criaturas deformadas, experimentos biológicos e agentes ligados à Umbrella ampliam o pesadelo.
Mesmo assim, o filme evita explicar cada detalhe do universo. Essa contenção beneficia a narrativa porque preserva o mistério e permite que espectadores sem contato com os jogos acompanhem a história. Por outro lado, os fãs encontram referências suficientes para reconhecer o DNA da franquia sem assistir a uma sucessão cansativa de acenos.
Horror corporal, violência e humor
Assim como fez em Noites Brutais e A Hora do Mal, Zach Cregger trabalha com mudanças bruscas de tom. O primeiro trecho aposta em isolamento, silêncio e suspense. Posteriormente, a produção abraça o horror corporal, a violência gráfica e um humor cada vez mais absurdo.
Surpreendentemente, essa combinação não destrói a tensão. Pelo contrário, o humor oferece breves momentos de alívio antes de novas explosões de brutalidade. Além disso, Abrams possui um senso de tempo cômico que transforma reações, pausas e pequenas tentativas de improviso em algumas das melhores cenas do filme.
As criaturas também ajudam a sustentar o espetáculo. Em vez de limitar o perigo aos zumbis tradicionais, o longa apresenta mutações grotescas e corpos distorcidos por experiências biológicas. Portanto, a violência não existe apenas para chocar: ela reforça a ideia de uma epidemia que reorganiza a anatomia humana de maneiras imprevisíveis.
Ainda assim, quando o filme acelera completamente, parte do medo cede espaço à ação. O último ato oferece energia e criatividade visual, mas já não provoca o mesmo desconforto encontrado na estrada e nos primeiros encontros de Bryan com os infectados.
Quando a explicação enfraquece o pesadelo
Embora Abrams sustente a narrativa, os personagens secundários recebem pouco espaço. Zach Cherry, Kali Reis e Paul Walter Hauser aparecem em momentos importantes, porém o roteiro os utiliza principalmente para movimentar a história e apresentar informações sobre a Umbrella.
Por consequência, as sequências mais explicativas dentro das instalações da corporação perdem parte da espontaneidade. Enquanto Bryan tenta apenas compreender o que está acontecendo, o longa permanece imprevisível. Quando cientistas e agentes passam a organizar as respostas, entretanto, a trama assume contornos mais convencionais.
Além disso, uma tentativa de aprofundar a vida pessoal do protagonista não alcança o impacto desejado. O elemento oferece motivação para Bryan continuar lutando, mas chega tarde demais para produzir uma conexão emocional realmente forte. Ainda assim, esse problema não compromete a experiência porque o filme mantém um ritmo enxuto durante seus aproximadamente 90 minutos.
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A crítica de Resident Evil
Resident Evil funciona porque entende a diferença entre fidelidade e reprodução. O longa não adapta literalmente uma campanha dos jogos, mas traduz sua ansiedade, sua progressão e o sentimento constante de vulnerabilidade.
Além disso, Austin Abrams entrega um protagonista carismático justamente por não parecer preparado para ocupar o centro de uma aventura desse tamanho. Cregger, por sua vez, equilibra suspense, humor e violência com segurança, mesmo que a parte final se torne menos assustadora e alguns personagens permaneçam pouco desenvolvidos.
Por fim, o filme prova que a franquia não precisa repetir suas histórias mais famosas para respeitar os jogos. Ela precisa compreender por que entrar em um corredor escuro, carregando poucos recursos e sem saber o que espera na próxima porta, continua sendo tão aterrorizante. Nesse aspecto, Resident Evil encontra o caminho certo.














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