A crítica de Coyote vs. Acme é um desafio. Eu fui uma criança que largava qualquer coisa quando Looney Tunes começava na televisão. Bastava o Papa-Léguas soltar o primeiro “beep-beep” para eu saber o que viria: o Coiote prepararia um plano absurdo, algum produto da Acme falharia e, segundos depois, uma explosão tomaria conta da tela. Eu sabia que ele perderia. Mesmo assim, continuava torcendo. Além deles, aguardava ansiosamente pelo “o que que há velhinho?” ou “Eu acho que vi um gatinho”.
Por isso, seria desonesto fingir total imparcialidade diante de Coyote vs. Acme. O sentimentalismo pode, sim, interferir no resultado final de uma experiência cinematográfica. Neste caso, ele interferiu bastante. Porém, a nostalgia não trabalha sozinha. O filme de Dave Green entende o carinho do público por esses personagens e, felizmente, encontra uma história capaz de justificar o retorno.
Crítica de Coyote vs. Acme mostra ideia simples que funciona
A trama parte de uma pergunta irresistível: depois de tantos foguetes, catapultas, patins e explosivos defeituosos, por que Wile E. Coyote nunca processou a Acme?
Cansado de se machucar durante suas tentativas de capturar o Papa-Léguas, o personagem procura Kevin Avery, advogado vivido por Will Forte. Inicialmente, Kevin pretende resolver o caso rapidamente. No entanto, o Coiote se recusa a aceitar um acordo pequeno e decide enfrentar uma das maiores corporações do mundo.
A partir daí, Coyote vs. Acme mistura comédia de tribunal, investigação e o caos físico característico de Looney Tunes. Além disso, o roteiro de Samy Burch transforma a Acme em uma representação direta das empresas que vendem produtos ruins, controlam diferentes setores e escapam das consequências graças ao próprio poder.
A mensagem não chega a ser discreta. Ainda assim, ela funciona porque estamos diante de uma comédia familiar, não de um tratado sobre ganância corporativa. Em vez de complicar o assunto, o filme deixa que os absurdos da empresa falem por si.
O Coiote continua sendo o Coiote
Um dos maiores acertos está na decisão de não dar uma voz comum ao protagonista. Wile E. Coyote continua se comunicando por expressões, desenhos e placas. Dessa forma, o filme preserva algo essencial do personagem: sua capacidade de despertar risos, pena e identificação sem dizer uma palavra.
Além disso, a animação se encaixa muito bem nos cenários reais. Objetos caem, personagens atravessam paredes e as leis da física mudam conforme a piada exige. Embora nem todas as sequências alcancem o ritmo enlouquecido dos curtas clássicos, várias delas recuperam aquela sensação de que qualquer coisa pode explodir a qualquer momento.
Will Forte, por sua vez, compreende que não precisa disputar atenção com os personagens animados. Seu Kevin é inseguro, cansado e acostumado a perder. Por isso, a amizade entre ele e o Coiote nasce com naturalidade: ambos conhecem muito bem a frustração de tentar e fracassar.
John Cena segue pelo caminho oposto. Como Buddy Crane, advogado da Acme, o ator exagera nos gestos, nas poses e na confiança. Porém, essa escolha combina com o universo apresentado. Em vários momentos, Cena parece mais cartunesco do que os próprios desenhos e isso funciona a seu favor.
Lana Condor também traz leveza como Paige, embora receba menos espaço do que merece. Aliás, esse é um problema presente em boa parte do núcleo humano. Alguns personagens existem apenas para movimentar a investigação, enquanto o desenvolvimento emocional fica concentrado em Kevin e no Coiote.
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Nem todas as piadas acertam o alvo
Apesar dos méritos, Coyote vs. Acme não mantém o mesmo ritmo durante toda a projeção. A primeira parte, com a apresentação do processo e das provas contra a empresa, reúne algumas das melhores piadas. Depois, entretanto, a narrativa se divide entre conspiração, perseguições e discussões jurídicas.
Consequentemente, o filme perde velocidade no trecho intermediário. Além disso, algumas participações de personagens clássicos parecem rápidas demais. Pernalonga, Patolino, Piu-Piu e outros nomes aparecem, mas nem todos recebem tempo suficiente para deixar uma marca.
O roteiro explica sentimentos que os desenhos antigos transmitiam apenas com uma queda de penhasco e uma nuvem de poeira. Entretanto, eu não vejo essa sensibilidade como uma traição. Pelo contrário: ela oferece uma nova maneira de olhar para um personagem que passou décadas sendo esmagado e, ainda assim, nunca desistiu.
O filme que também sobreviveu a uma bigorna
É impossível separar Coyote vs. Acme da história de seu quase desaparecimento. A Warner Bros. concluiu o longa, mas anunciou em 2023 que não o lançaria e pretendia tratá-lo como uma baixa fiscal. Assim, anos de trabalho de artistas, atores e técnicos quase terminaram guardados em uma prateleira.
A decisão provocou revolta em Hollywood e mobilizou fãs nas redes sociais. Posteriormente, a Ketchup Entertainment comprou o filme por cerca de US$ 50 milhões e garantiu sua chegada aos cinemas. A história real transformou a batalha do Coiote contra uma corporação em uma metáfora involuntária para a própria luta da produção contra o estúdio.
Talvez esse contexto aumente a emoção. Na verdade, certamente aumenta. No entanto, isso também faz parte da experiência. Quando vemos Wile E. Coyote levantar após mais uma queda, não enxergamos apenas um personagem. Também lembramos de um filme completo que uma empresa decidiu apagar e que sobreviveu porque muita gente se recusou a aceitar seu desaparecimento.
Após a crítica, vale a pena assistir a Coyote vs. Acme?
Coyote vs. Acme não é tão revolucionário quanto Uma Cilada para Roger Rabbit, nem tão anárquico quanto os melhores curtas de Chuck Jones. Ainda assim, o filme é engraçado, afetuoso e feito por pessoas que conhecem esses personagens.
Acima de tudo, ele entende por que continuamos torcendo pelo Coiote. Não esperamos que ele finalmente capture o Papa-Léguas. Queremos apenas vê-lo levantar, limpar a poeira e elaborar outro plano impossível.
Talvez minha infância tenha acrescentado um ponto à nota. Porém, se o cinema também vive das lembranças que carregamos até a sala escura, não considero isso um defeito. Depois de sobreviver ao maior anvil de sua história, Coyote vs. Acme finalmente corre livre pela tela. E, desta vez, o velho Coiote conquistou uma vitória.














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