Poucas criaturas atravessaram tantas obras da cultura pop quanto o Kraken. O monstro já recebeu a ordem para despertar em Fúria de Titãs, arrastou navios para as profundezas em Piratas do Caribe: O Baú da Morte e enfrentou jogadores em títulos como God of War II e Sea of Thieves. Portanto, colocar mais uma versão da criatura na tela, como em Kraken Terror no Mar, exige alguma personalidade.
Kraken: Terror no Mar encontra seu diferencial ao misturar o cinema de monstros com os filmes militares de submarino. Em vez de apostar somente na destruição, o diretor Nikolay Lebedev aproveita os corredores apertados, os ruídos do casco e a falta de visão no fundo do oceano para criar uma tensão eficiente.
A história acompanha Viktor Voronin (Aleksandr Petrov), comandante enviado para localizar um submarino nuclear desaparecido. Além da importância militar da missão, ele carrega uma motivação pessoal: seu irmão comandava a embarcação perdida. Entretanto, a operação se torna ainda mais perigosa quando a tripulação descobre que uma criatura gigantesca habita aquelas águas.
A narrativa segue uma linha bastante simples. Viktor recebe a missão, reúne sua tripulação e avança em direção ao desconhecido enquanto enfrenta conflitos dentro e fora do submarino. Essa estrutura direta ajuda o filme, principalmente porque Lebedev não tenta esconder sua natureza de aventura popular.
Além disso, o longa sabe explorar o medo do que permanece fora do campo de visão. O Kraken representa uma ameaça constante, mesmo quando não aparece por completo. O oceano escuro, o isolamento e a pressão crescente sobre a tripulação fazem boa parte do trabalho.
Em bom nerdês, alguns momentos lembram a HQ Namor: As Profundezas, escrita por Peter Milligan e ilustrada por Esad Ribić. As histórias não seguem o mesmo caminho, mas compartilham a ideia do fundo do mar como um território quase sobrenatural. Nas duas obras, a escuridão esconde algo antigo, poderoso e indiferente à presença humana.
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Os clichês de Kraken Terror no Mar chegam à superfície
O problema aparece quando Kraken: Terror no Mar abandona parte dessa tensão para cumprir uma lista conhecida de convenções. Até então, o filme funciona bem como uma aventura submarina linear, apoiada no conflito entre os personagens e na ameaça da criatura. Porém, o último ato procura complicar uma trama que não precisava disso.
O primeiro tropeço está na tentativa de construir uma história de amor. A aproximação romântica não recebe desenvolvimento suficiente e pouco acrescenta à jornada de certos personagens. Assim, cenas que deveriam criar envolvimento emocional apenas interrompem o ritmo da missão.
Depois, o roteiro recupera uma solução praticamente esquecida durante boa parte da história. O elemento retorna no momento exato e assume uma importância salvadora, como se o filme precisasse resolver rapidamente o perigo que construiu. A conveniência diminui a força do confronto, pois a resposta não nasce naturalmente das decisões tomadas pelos personagens.
Por fim, surge a boa e velha superarma. O recurso oferece uma justificativa para aumentar o tamanho da ameaça, mas também deixa a história mais previsível. Afinal, quando uma produção apresenta uma arma capaz de alterar o equilíbrio militar, o público já imagina que ela ocupará um lugar decisivo no clímax.
Mesmo assim, esses problemas não apagam as qualidades anteriores. Lebedev conduz a ação com clareza, aproveita bem o ambiente fechado e entrega uma criatura com peso e escala. Aleksandr Petrov também sustenta o protagonista ao equilibrar autoridade, culpa e preocupação com o irmão desaparecido.
Kraken: Terror no Mar poderia ter encerrado sua viagem com mais segurança se confiasse na simplicidade da própria proposta. Ainda assim, permanece como um bom filme de ação e aventura, especialmente para quem gosta de submarinos, monstros gigantes e missões militares. A descida funciona; são os clichês trazidos de volta à superfície que impedem o longa de alcançar águas mais profundas.
Kraken: Terror no Mar estreia nesta quinta-feira (3), com exclusividade no Adrenalina Pura+.
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