Crítica | Lanternas brilha no drama, mas tropeça no desfecho

Poucos conceitos dos quadrinhos oferecem tanta liberdade visual quanto o Lanterna Verde. Um anel capaz de transformar vontade em matéria parece um convite para batalhas espaciais, criaturas impossíveis e construções limitadas apenas pela imaginação. Lanternas, porém, segue na direção oposta. Veja a crítica de Lanternas.

A série reduz o espetáculo para observar os homens que carregam esses anéis. Em vez de partir imediatamente para Oa ou explorar diferentes setores do universo, a trama coloca Hal Jordan e John Stewart no interior dos Estados Unidos, diante de um crime que atravessa duas épocas.

Criada por Chris Mundy, Damon Lindelof e Tom King, a temporada reúne oito episódios e trata seus protagonistas como policiais intergalácticos envolvidos em um mistério com consequências cósmicas, conforme a apresentação oficial da HBO. Essa escolha dá personalidade à produção, mas também cria seu principal conflito: quanto mais Lanternas tenta provar que pode funcionar como drama criminal, mais ela se afasta do imaginário que torna esses heróis tão particulares.

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Dois homens presos às próprias imagens

Kyle Chandler constrói um Hal Jordan muito distante da figura impecável que a população acredita conhecer. Seu Hal está cansado, ressentido e assustado com a possibilidade de perder espaço. Ainda assim, ele esconde a insegurança atrás de sarcasmo, arrogância e uma postura de quem já viu tudo.

O acerto está em não transformar esse desgaste numa desculpa fácil. Hal pode ser carismático em uma cena e insuportável na seguinte. Além disso, Chandler mantém pequenas rachaduras no personagem mesmo durante os momentos mais leves, deixando claro que sua confiança serve como mecanismo de defesa.

Aaron Pierre segue um caminho mais contido. Seu John Stewart inicia a temporada como um homem disciplinado, rígido e determinado a provar que merece o anel. Porém, essa aparente estabilidade também nasce do medo: ele passou a vida treinando para cumprir uma função definida por outras pessoas.

O confronto entre os dois estabelece o coração da série. Hal teme ser substituído; John recusa o papel de simples sucessor. Portanto, a relação não funciona apenas como o encontro entre mestre e aprendiz. Trata-se de uma disputa entre dois homens que precisam abandonar as versões de si mesmos construídas por suas famílias, instituições e expectativas.

Pierre e Chandler tornam essa dinâmica convincente até quando o roteiro repete discussões ou prolonga silêncios. Há atrito, humor e afeto, mas nenhum deles surge de maneira automática. A aproximação precisa ser conquistada.

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O mistério importa menos na crítica de Lanternas

A investigação em Rushville fornece a estrutura da temporada. Contudo, o crime central funciona melhor como instrumento para revelar os personagens do que como mistério propriamente dito.

As pistas sustentam a curiosidade, enquanto as duas linhas temporais reorganizam nossa percepção sobre Hal, John e os habitantes da cidade. Ao mesmo tempo, a montagem nem sempre encontra o melhor ritmo. Alguns retornos ao passado interrompem cenas que estavam ganhando força, enquanto determinadas respostas chegam por meio de longas explicações.

Kelly Macdonald ajuda a dar peso ao núcleo de Rushville. Sua personagem ocupa uma posição delicada entre autoridade, afeto e proteção familiar. Já o restante da cidade amplia a sensação de que algo errado permaneceu escondido durante anos sob uma rotina aparentemente comum.

Além disso, a presença dos Caçadores Cósmicos permite que a série desenvolva uma de suas ideias mais interessantes: até que ponto alguém consegue escapar daquilo para o qual foi programado? A pergunta vale para máquinas, mas também para John, Hal e as famílias que moldaram os dois.

Nesse ponto, Lanternas encontra uma ligação inteligente entre drama humano e mitologia dos quadrinhos. O problema aparece quando o roteiro precisa transformar essa ideia em resolução.

A contenção funciona, até funcionar demais

Visualmente, a série aposta em estradas vazias, campos abertos, delegacias pequenas e céus que parecem maiores do que as pessoas. O verde dos anéis rompe essa paleta com eficiência justamente porque a produção não o utiliza a todo momento.

No entanto, a mesma contenção que valoriza os poderes começa a limitá-los. Lanternas passa tanto tempo evitando a aparência de uma série convencional de super-heróis que, em alguns momentos, parece constrangida diante da própria origem.

Os anéis raramente exploram a criatividade que define os personagens nas HQs. O universo da Tropa aparece em fragmentos, enquanto Sinestro e outros elementos cósmicos recebem menos espaço do que poderiam. Dessa forma, a produção entrega uma boa história sobre os Lanternas, mas nem sempre oferece a sensação de acompanhar uma aventura do Lanterna Verde.

As conexões com o restante do DCU também variam. Algumas ampliam naturalmente o mundo; outras parecem inseridas para lembrar que John continuará em filmes e séries futuros. Quando Guy Gardner aparece, por exemplo, a energia de outra vertente do universo compartilhado invade uma narrativa muito mais sóbria.

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Um final emocional, mas sem força de clímax

O último episódio resolve o principal crime e conclui a passagem simbólica entre Hal e John. A despedida dos dois funciona porque Chandler e Pierre passaram a temporada construindo uma relação baseada em resistência, frustração e respeito.

Além disso, a decisão final de John mantém coerência com sua trajetória. Ele não aceita simplesmente a função preparada para ele; escolhe que tipo de Lanterna pretende ser. O gesto abre um caminho interessante para o personagem e preserva o conflito com as estruturas de poder do DCU.

Contudo, o episódio funciona mais como epílogo do que como clímax. A série guarda muitas respostas para a última hora e, depois de revelá-las, desacelera quando deveria reunir tensão emocional, investigação e ficção científica.

Não era necessário encerrar a temporada com uma batalha gigantesca. Ainda assim, faltou um confronto dramático capaz de fazer o mistério e os temas colidirem. O resultado oferece bons momentos isolados, mas não produz a catarse esperada depois de sete semanas de preparação.

A crítica de Lanternas

Lanternas termina como uma ótima série que ainda não consegue ser, por completo, uma ótima série do Lanterna Verde, para a nossa crítica.

Seu maior triunfo está na escala humana. Aaron Pierre entrega um John Stewart firme sem torná-lo frio, enquanto Kyle Chandler encontra vulnerabilidade dentro de um Hal Jordan desgastado e difícil. Juntos, eles sustentam uma temporada que discute medo, legado, autoridade e livre-arbítrio com mais cuidado do que a maioria das produções de super-heróis.

Por outro lado, o desejo de manter os pés no chão reduz parte da imaginação, da aventura e da dimensão cósmica que esses personagens pedem. Além disso, o desfecho emocional não compensa totalmente um clímax enfraquecido pela exposição e pela falta de tensão.

Mesmo com esses tropeços, a série encontra uma voz própria dentro do DCU. Ela não trata o anel como resposta para todos os problemas, mas como mais um peso nas mãos de homens que ainda precisam decidir quem desejam ser. Para a crítica, 1uando se concentra nisso, Lanternas realmente brilha.

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